6  Diagnóstico, Classificação e rastreio do diabetes mellitus

Autor

Gil Kruppa Vieira

Data de Publicação

03/11/2024

Data de Modificação

19/02/2026

Introdução

O diabetes mellitus (DM) é uma doença crônica caracterizada por hiperglicemia causada pela utilização inadequada da glicose associada ao excesso de glicose produzida pela glicogenólise e neoglicogênese como resultado da deficiência absoluta ou relativa de insulina.

Critérios para diagnóstico de diabetes

Os critérios para diagnóstico de DM envolvem a identificação de elevação na glicemia plasmática ou hemoglobina glicada (A1C) e devem ser feitos em todos os indivíduos com quadro clínico sugestivo de DM e em indivíduos assintomáticos com risco aumentado de desenvolver essa condição (quadro 6.1).

\scriptsize{\bullet} Glicemia ocasional (em qualquer período do dia, independente do tempo de jejum) igual ou superior a 200 mg/dL associada a sinais e sintomas típicos de DM: poliúria, polidipsia, perda ponderal não intencional e desidratação

\scriptsize{\bullet} Glicemia de jejum (GJ) com pelo menos 8 horas de jejum igual ou superior a 126 mg/dL

\scriptsize{\bullet} Glicemia plasmática igual ou superior a 200 mg/dL no tempo 120 minutos de um teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com 1,75 g/Kg de glicose (máximo: 75 g)

\scriptsize{\bullet} Hemoglobina glicada (A1C) igual ou superior a 6,5%

Quadro 6.1. Critérios para diagnóstico de diabetes mellitus
  • Hiperglicemia isolada sem a presença de sinais e sintomas clássicos de DM não confirma o diagnóstico.

  • Na ausência desses sinais, são necessários dois testes iguais alterados ou dois testes diferentes que indiquem hiperglicemia (GJ e A1C, por exemplo).
    Se um dos exames for discordante, o exame que estava previamente alterado deve ser repetido e, caso encontre-se alterado, o diagnóstico de DM é confirmado.

  • Cuidados com o uso da A1c para diagnóstico de DM:

    • Algumas situações e condições clínicas podem interferir no tempo de vida das hemácias e, consequentemente, reduzir os níveis de A1C (quadro 6.2).

    • A análise laboratorial dos níveis de A1C deve utilizar a metodologia de cromatografia líquida de alta eficiência (High Performance Liquid Chromatography, HPLC), o método ser certificado pelo National Glycohemoglobin Standardization Program e padronizado ao ensaio de referência do Diabetes Control and Complications Trial (DCCT).

Anemias
Hemoglobinopatias
Esplenectomia
Transfusão de hemácias
Hemólise
Cirrose
Deficiência de glucose-6-fosfato desidrogenase (G6PD)

Uso de eritropoietina recombinante
Infecção pelo HIV
Uso de medicamentos antirretrovirais
Hemodiálise
Insuficiência renal crônica
Gestação e puerpério

Quadro 6.2. Fatores que podem afetar os valores de A1C
Fonte: elaborado pelo autor.

Classificação do diabetes mellitus

Autalmente, o DM é classificado em quatro principais categorias, baseado nas características fisiopatológicas.

  • DM tipo 1 (DM1): é uma doença crônica autoimune e poligênica causada pela destruição das células β-pancreáticas, resultando em deficiência progressiva de insulina. O tempo DM1 inclui todas as formas de DM causadas pela destruição autoimune das células β, independentemente da idade de início.
    Pode ser classificado como imunomediado ou DM1A, quando há identificação de marcadores de autoimunidade e em idiopático ou DM1B quando sua etiologia permanece desconhecida.
  • DM tipo 2 (DM2): é causado pela perda não autoimune progressiva na capacidade de secreção adequada de insulina, frequentemente associada à resistência insulínica.
  • Tipos específicos de DM: inclui diversos mecanismos fisiopatológicos como as formas monogênicas de DM, induzido por medicamentos, associado a doenças do pâncreas exócrinos, entre outos (quadro 6.3)
  • DM gestacional: diabetes diagnosticado no 2 ou 3º trimestre de gestação em paciente sem evidências de DM antes da gravidez

1. Defeitos genéticos da função da célula beta
Maturity-onset diabetes of the young (MODY)
Diabetes mitocondrial
Diabetes neonatal transitório ou permanente

2. Doenças do pâncreas exócrino
Diabetes relacionado à fibrose cística (DRFC)
Pancreatite
Pancreatectomia
Síndrome de Wolcott-Rallison (#226980)
Hemocromatose
Neoplasias

3. Induzido por medicamentos
Pentamidina
Ácido nicotínico
Glicocorticoides
Diazóxido
Agonistas de receptores beta-adrenérgico
Diuréticos tiazídicos
Interferon gama
Piriminil
L-asparaginase
Antipsicóticos atípicos
Hormônios tireoidianos
Fenitoína

4. Formas incomuns de DM autoimune
Síndrome da pessoa rígida
Síndrome de resistência à insulina tipo B
Outras

5. Defeitos genéticos na ação da insulina
Resistência insulínica tipo A (#610549)
Síndrome de Rabson-Mendenhall (#262190)
Síndrome de Donohue (#246200)
Diabetes lipoatrófico (#608594, #269700)

6. Endocrinopatias
Hipertireoidismo
Acromegalia
Síndrome de Cushing
Glucagonoma
Feocromocitoma
Somatostatinoma
Aldosteronoma

7. Outras síndromes genéticas associadas a DM
Síndrome de Down
Síndrome de Klinefelter
Síndrome de Turner
Síndrome de Wolfram (#222300)
Ataxia de Friedreich (#229300)
Coreia de Huntington (#143100)
Síndrome de Laurence-Moon-Bardet-Biedl (#209900)
Síndrome de Prader-Willi (#276270)
Distrofia miotônica (#160900 e #602668) Porfiria

8. Infecções
Rubéola congênita
Citomegalovírus

Quadro 6.3. Tipos específicos de diabetes mellitus
Fonte: adaptado de Rodacki M et al. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023) - doi: 10.29327/557753.2022-1,
  • Pré-diabetes: termo usado para pessoas que apresentam valores de glicemia abaixo dos valores que definem DM mas elevados para serem considerados normais.
    Não deve ser visto como uma entidade clínica, mas como um indivíduo que apresenta risco aumentado de desenvolver DM.
    Indivíduos com A1C entre 5,5 e 6,0%, apresentam um risco de 9 a 25% de desenvolverem DM em 5 anos. Já os indivíduos com A1C entre 6,0 e 6,5%, de 25 a 50%.

    Além de risco aumentado de apresentarem DM, os indivíduos com pré-diabetes também estão mais vulneráveis a desenvolverem doenças cardiovasculares e complicações crônicas. Normalmente, o pré-diabetes está associado à obesidade, dislipidemia e hipertensão arterial.

    Os critérios para identificação de indivíduos com pré-diabetes estão descritos no quadro 6.4.

\scriptsize{\bullet} Glicemia de jejum alterada: valores de glicemia entre 100 e 125 mg/dL

\scriptsize{\bullet} Tolerância à glicose alterada: valores de glicemia entre 140 e 199 mg/dL no tempo 120 minutos do TOTG

\scriptsize{\bullet} A1C alterada: entre 5,7 e 6,4 %

Quadro 6.4. Critérios para diagnóstico de pré-diabetes

Rastreamento de DM em populações específicas

DM tipo 1

  • Parentes de primeiro grau de pessoas com DM1 apresentam risco relativo de também desenvolverem DM1 cerca de 15 maior que indivíduo sem história familiar de DM1.

  • Várias sociedades de estudo de diabetes estão recomendando o rastreamento sistemático do DM1 pré-clínico desde que haja viabilidade técnica, disponibilidade financeira e infraestrutura necessária para tal.

  • Indivíduos com dois ou mais anticorpos positivos, a progressão para o estágio 3 de DM1 foi de quase 70% em 10 anos e de 84% em 15 anos.

  • A pesquisa dos autoanticorpos em parentes de primeiro grau deve ocorrer nos seguimentes momentos:

    • Entre 2 e 4 anos de idade

    • Entre 6 e 8 anos

    • Entre 10 e 15 anos

  • Se houver positividade de um ou mais autoanticorpos, o exame deve ser confirmado em teste adicional com nova amostra de sangue.

DM tipo 2

  • Deve ser considerado em crianças maiores de 10 anos ou após início de puberdade com história de obesidade associada a um ou mais fatores de risco (quadro 6.5)

História familiar para DM2 (parentes de primeiro ou segundo grau)

Sinais de resistência insulínica
  Dislipidemias
  Hipertensão arterial
  Síndrome dos ovários policísticos
  Nascidos com peso pequeno ou grande para idade gestacional

DM materno ou DM gestacional durante a gestação da criança

Etnias e ancestralidades de risco ^1

Quadro 6.5. Critérios para rastreamento de DM2 em crianças e adolescentes assintomáticos
Observações: 1. recomendação somente pela ADA
Fonte: adaptado de ADA Professional Practice Committee for Diabetes. Diabetes Care (2026) - doi: 10.2337/dc26-S002 e Rodacki, M et al. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024) - doi: 10.29327/5412848.2024-1
  • O rastreamento é feito com o TOTG com 1,75 g/Kg de glicose (máx.: 75 g)

  • Glicemia acima de 200 mg/dL no T120 do TOTG confirma o diagnóstico de DM

  • Se o teste não confirmar o diagnóstico, repetir a cada 3 anos enquanto o paciente apresentar sobrepeso ou obesidade.

Diabetes relacionado à fibrose cística

  • O diabetes relacionado à fibrose cística (DRFC) é a comorbidade mais comum em pessoas com fibrose cística (FC)

  • Ocorre em cerca até 20% dos adolescentes e 40 a 50% dos pacientes adultos

  • Está associado maior mortalidade, doença inflamatória pulmonar mais grave, deterioração da função pulmonar e piora do estado nutricional.

  • O rastreamento deve ser feito em todas as crianças que vivem com FC

    • Idade de início: a partir de 10 anos de idade

    • TOTG com 1,75 g/Kg de glicose (máx.: 75 g)

    • Repetir o teste anualmente se o resultado for normal

    • Glicemia acima de 200 mg/dL no T120 do TOTG confirma o diagnóstico de DRFC

    • A1c igual ou superior a 6,5% são consistentes com o diagnóstico de DRFC e devem confirmados por um segundo teste (TOTG ou A1C).

Bibliografia

  1. American Diabetes Association Professional Practice Committee for Diabetes. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes - 2026. Diabetes Care [Internet]. 2026;49(Suppl 1): S-47-S49 doi: 10.2337/dc26-S002

  2. Rodacki M, Cobas RA, Zajdenverg L, Silva Júnior WSD, Giacaglia L, Calliari LE, et al. Diagnóstico de diabetes mellitus. Em: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). doi: 10.29327/5412848.2024-1

  3. Rodacki M, Teles M, Gabbay M, Montenegro R, Bertoluci M. Classificação do diabetes. Em: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023) - doi: 10.29327/557753.2022-1